[Aperta a tecla] Conto de terror: Caça ou caçador

02 novembro 2015
Oi, gente! No início do mês eu propus a vocês que escrevêssemos um conto de terror para o concurso cultural que estava acontecendo no blog Pausa para um livro, não sei se algum de vocês se animou, mas eu enviei o meu. E é com muita alegria e empolgação que venho contar a vocês que EU GANHEEEEI! HAHAHAHAH

Sei que pode não parecer muita coisa, afinal foi um concurso pequeno (o prêmio são dois livros: Nosferatu e Amaldiçoado, ambos do Joe Hill), mas é a primeira vez que tenho algum reconhecimento de verdade pela minha escrita que não venha de amigas minhas, mas sim de uma "comissão julgadora". Então sim, eu fiquei muuuito feliz.

Não tenho muito conhecimento na área de terror, mas já li alguns thrillers psicológicos, então foi o que eu fiz, ou pelo menos tentei fazer. O resultado foi o conto intitulado Caça ou caçador e eu vou disponibilizar ele aqui para quem tiver interesse em ler. Espero que gostem e não esqueçam de deixar seus comentários!


A médica ajeita os óculos e se inclina sobre a mesa, com um sorriso que deveria parecer gentil, mas seus dentes são brancos demais, sua proximidade é intimidadora.
— E então, como se sente hoje?
Minha vista repousa em meu colo, onde minhas mãos estão apoiadas. Elas parecem limpas, mas ao fechar os olhos por um segundo sequer, ainda vejo o sangue seco embaixo das unhas roídas. No plano de fundo, o vestido que um dia tinha sido branco, rasgado e coberto de lama. Abro os olhos e respiro fundo.
— Eu estou bem, doutora — respondo com um sorriso forçado para lhe agradar.
Ela vira para a janela e fica um tempo pensando antes de falar.
— Hoje é sua última sessão, Luiza. Preciso que você me convença que está bem de verdade, se não fizer isso, não vou poder te liberar.
— E o que acontece comigo se você não me liberar? — A pergunta foi retórica. Eu sei muito bem para onde vão me mandar caso ela decida que eu não sou mentalmente estável.
— Isso é o juiz quem vai decidir. — A cadeira se volta novamente em minha direção e seu olhar é pesaroso. — Sei que é difícil falar sobre isso, mas você precisa tentar, todas as vezes que você veio aqui só me disse que estava bem. Isso não vai te ajudar em nada, se quer voltar para casa precisa me contar o que aconteceu.
— Eu já disse que não me lembro.
Sua mentirosa.
— Isso é normal, Luiza. Pessoas que passam por situações de estresse intenso tem tendência a rejeitar memórias que causem angústia ou medo. Seu subconsciente está tentando te proteger do trauma que você vivenciou, mas se você guardar isso dentro de você, talvez nunca seja capaz de esquecer completamente, colocar esse episódio da sua vida para trás.
Minhas mãos soam frio, meu olho direito começa a palpitar. Não quero lembrar. Não consigo esquecer. Preciso seguir em frente.
Não é tão fácil quanto achou que seria, não é?
— Por onde eu começo?
— Me conte porque estava lá.
— Você sabe por que eu estava lá. Meu marido foi preso por causa de uma denúncia anônima, alguém ligou para a polícia e disse que ele batia em mim. Ele ficou na cadeia até o julgamento, quando fui chamada para depor e disse que nada daquilo era verdade. Soltaram ele e quando voltamos para casa disse que deveríamos recomeçar e me levou para fazer uma viagem.
Não digo a ela que estava com medo, que não sabia o que fazer e só decidi no dia do julgamento quando olhei seu rosto inexpressivo me estudando. Eu não fazia ideia do que faria quando estivéssemos sozinhos. Ainda não.
— Fomos de carro até uma pequena cidade próxima à São Paulo chamada Paranapiacaba, lembro claramente de quando chegamos lá. A névoa passeava ao vento, deixando tudo branco por um instante, e no momento seguinte o céu já estava azul novamente. Era como andar dentro das nuvens. Lembro da visita ao Museu Ferroviário, as peças gigantes, os vagões dos trens antigos e imponentes. Lembro da ponte de ferro, conectando os dois lados da cidade sobre os trilhos, e da torre do relógio. Então escureceu e eu não lembro de mais nada.
Ah, sim. Você lembra muito mais, apenas deseja que tivesse esquecido.
Eu também lembro da luz branca vindo em minha direção, do barulho ensurdecedor do apito do trem. Passos silenciosos correndo em todas as direções, mas quem estava correndo? Será que eu estava correndo?
— Se esforce, Luiza. Para onde vocês foram quando saíram do museu?
— Não tenho certeza, fomos em uma pousada em algum momento, mas não tinha vagas. Acho que estávamos voltando para onde tínhamos deixado o carro.
— Vocês chegaram ao carro?
Não. A névoa ainda passeava ao vento, escondendo sombras escuras que se deslocavam em meio à noite branca e depois não estavam mais lá. Escutei seus gritos se misturarem aos meus. Mãos que não poderiam ser minhas, não poderiam ser suas. Mas lá estavam ao nosso redor. Braços, pernas, gritos, sangue. Muito sangue. Uma brincadeira horripilante na escuridão. Uma brincadeira na qual apenas um de nós poderia sair vencedor.
— Não consigo recordar com clareza, é como se minha mente tivesse virado um buraco negro, engolindo tudo que parece real, tudo que parece lógico. — Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas, minhas mãos tremem sobre minhas coxas.
— Tudo bem. Qual a próxima coisa que vem a sua mente?
— Luz. Dor. O dia já tinha clareado e eu estava descalça, caminhando pela estrada. Não faço ideia de como fui para ali, ou quanto tempo passei andando. Meus pés estavam machucados, mas o sangue sobre meu vestido não era meu, era todo dele. Ninguém conseguiu achá-lo. — Soluços violentos irrompem pelo meu corpo enquanto choro.
— Está tudo bem, você está bem. Já acabou.
Não acabou, nunca vai acabar. Não enquanto eu estiver aqui.
Ela me dá um lenço de papel e eu tento me acalmar, mesmo sabendo que minhas mãos nunca mais vão estar limpas de novo. Sua caneta risca um pedaço de papel e ela diz que devo tomar o remédio caso não consiga dormir.
— Não se preocupe, vou assinar a documentação para que você seja liberada oficialmente. Tenho certeza que você está ansiosa para deixar tudo isso para trás.
Assinto, assoando o nariz no lenço. Ela me entrega o papel e diz que devo voltar a vê-la se por qualquer motivo não estiver me sentindo bem, estável.
Rá! Se ela soubesse um terço da sua instabilidade. Se ela ao menos soubesse do que você é capaz.
Saio do consultório e lavo o rosto no banheiro, me maquiando cuidadosamente. Caminho até meu carro e dirijo para casa. Ao entrar acendo a luz e vou até a cozinha, tiro uma cerveja de dentro da geladeira e quando fecho a porta vejo uma foto nossa pregada com um imã do lado de fora.
Um pequeno riso sarcástico escapa dos meus lábios. Rasgo a foto, cada pedacinho dilacerado fazendo com que eu me sinta mais leve. Jogo os restos do desgraçado no lixo e caminho calmamente até a sala. Sento no sofá, ligo a televisão e respiro.
O ar tem um cheiro enjoativo de morte e putrefação. O mesmo cheiro que me acompanha desde aquele dia aonde quer que eu vá e que apenas eu posso sentir. Ele não pode mais me machucar, mas mesmo assim nunca mais me deixará ter paz novamente. 
Enfim sós, querida.

10 comentários

  1. Olá! Gostei muito do seu blog e te indiquei para uma tag! Dá uma olhadinha lá: http://www.comoseeufossepoeta.com.br/2015/11/tag-liebster-award.html
    Espero que goste! Beijos!

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  2. Uau! Que conto incrível! Parabéns, você tem talento!
    Nunca fui à Paranapiacaba, mas pelos vídeos que já vi de lá, parece ser um lugar bem propício para um suspense de fato.

    http://caindonacultura.com

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    1. Obrigada, Cassia! Eu já fui lá em Paranapiacaba e quando pensei num cenário para um conto de terror esse foi o primeiro lugar que me veio a cabeça!

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  3. Olá, Marina!
    Sensacional seu conto! Mereceu vencer o concurso.
    Ficarei pensando nele por um bom tempo, ótima sacada ambientar numa sessão de psicoterapia.
    Seguindo o blog :)
    Beijos!
    Gatita&Cia.

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  4. Cara, as últimas palavras fizeram cada pelinho no meu braço se arrepiar!
    Que foda!
    Desculpe o palavreado, mas não tem como descrever de outro jeito!! haha
    Mereceu com certeza!!
    Parabéns!


    Beijos
    www.ooutroladodaraposa.com.br

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    1. Hahahaha, fico tão feliz de sentir essa empolgação! Pelinhos arrepiados! *-*
      Muito obrigada, Rai! :D

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  5. Caracaaaaaa <3 Arrrasou no conto!
    Mais que merecedor... Muito bem.
    www.camilakellen.com

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  6. Oi Marina, tudo bem flor ???
    Primeiramente, preciso te parabenizar !!! Fiquei muito feliz por saber que você foi a vencedora do concurso, parabéns flor !!! É realmente ótimo ser reconhecido, e ainda mais, ser reconhecido por algo que gostamos de fazer, por algo que amamos, como escrever !!!
    Adorei seu conto, simplesmente adorei !!! Espero ver mais textos seus por aqui, você escreve muito bem !!!

    Beijinhos
    Hear the Bells

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